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Tópico 2: Aspectos gerais da atuação da Companhia de Jesus no Brasil Colonial:

 

O principal trabalho dos missionários era salvar almas por meio da conversão ao catolicismo. Então, trabalhavam para cumprir este propósito através da evangelização que, basicamente, consistia em converter os indígenas ao catolicismo. Para isso, os jesuítas lutavam para combater os “males da terra”, como chamavam os costumes dos indígenas: a antropofagia, a poligamia, a crença em vários deuses, a nudez e os conflitos intertribais. Os padres trabalhavam para substituir as práticas indígenas pelos costumes católicos e europeus, e para isso aprenderam o tupi, idioma mais falado pelos grupos indígenas que viviam nas áreas colonizadas no Brasil do século XVI.

O trabalho para converter os indígenas era feito de diferentes maneiras. Contudo, a proposta central dos jesuítas era ensinar aos nativos os costumes europeus e católicos. Eles acreditavam que agindo assim estavam desempenhando o projeto evangelizador da Igreja Católica, mas também um trabalho civilizador para que a dominação da Coroa portuguesa fosse efetivada com sucesso. A seguir, temos um trecho de uma carta escrita por Manoel da Nobrega, o chefe da missão jesuítica no Brasil até 1570. Nela, o padre descreve o propósito da missão jesuítica:

De muitas partes somos chamados, para irmos ensinar as cousas de Deus e não podemos chegar, porque somos poucos; e certo, creio que em todo o mundo não se nos depara terra tão disposta para produzir o fructo como esta, onde vemos almas perecerem, por se não poder remedial-as: em falta, vamos lhes accendendo a vontade de ser christãos, para que se morrerem, nestes comenos, enquanto dura o cathecismo, delles Deus haja misericordia. Aos que amam a Deus e desejam a sua gloria não sei como lhes soffre a paciencia de se não embarcarem logo e virem cavar nesta vinha do Senhor tão espaçosa é, e que tão poucos operarios possue. Poucas lettras bastariam aqui, porque tudo é papel branco, e não ha que fazer outra cousa, sinão escrever á vontade as virtudes mais necessarias e ter zelo em que seja conhecido o Creador destas suas creaturas.

NÓBREGA, Manoel da (1517-1570). Ao Dr. Navarro, seu Mestre em Coimbra (1549). In: __________. Cartas do Brasil, 1549-1560. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988, pp. 93-94.

Além de converter os indígenas, os jesuítas se ocupavam também com a assistência religiosa e social aos católicos, fossem eles colonos ou indígenas e escravos africanos convertidos ao catolicismo. Assim, eram celebradas missas, sermões e auxílio espiritual aos doentes. Os padres também ensinavam os filhos dos colonos mais abastados a ler e escrever.

O objetivo dessas atividades era promover a reeducação religiosa e moldar os costumes de acordo com os preceitos do catolicismo. Afinal, os colonos que viviam no Brasil estavam imersos em uma realidade totalmente diferente daquela que viviam na Europa. Assim, muitos acabavam vivendo longe dos princípios religiosos que norteavam as condutas sociais no Velho Continente. E não era isso que a Coroa portuguesa e a Igreja Católica queriam, mas sim bons súditos para o rei e almas para Deus.

Desse modo, os jesuítas lutaram para que a os reis de Portugal e da Espanha criassem leis que protegiam os indígenas da escravidão. Ainda, realizavam pregações e encenações teatrais para chamar a atenção dos colonos para os desvios morais que cometiam, tais como as relações conjugais com as indígenas, o aprisionamento de nativos e a ausência nas práticas religiosas do catolicismo, como as missas e festas religiosas. Os padres eram rigorosos com o controle das condutas, pois acreditavam que só vivendo de acordo com os princípios da Igreja é que seria possível se concretizar o estabelecimento efetivo da colonização e da evangelização.

A construção de colégios foi outro aspecto importante da atividade missionária no Brasil. Na época, um colégio da Companhia de Jesus servia como moradia para os missionários e ainda funcionava como o local para a catequese, para a instrução formal dos noviços e de leigos. Além disso, os colégios eram centros de cura, onde eram levados os indivíduos doentes. Existiam as alas hospitalares, nas quais os jesuítas desempenhavam o tratamento dos necessitados. Ao seu redor geralmente nasciam pequenos agrupamentos humanos com colonos, indígenas e escravos africanos. Isso fazia dos colégios um marco para as cidades coloniais. Na imagem a seguir podemos observar a estrutura de um colégio jesuítico.

Além dos colégios, outro elemento de destaque da atuação missionária eram os aldeamentos, ou seja, locais onde os jesuítas centralizavam diversos grupos indígenas para que vivessem sob o redigido controle dos padres e a partir dos costumes europeus e católicos. Em uma carta de Manoel da Nóbrega vemos os argumentos que os jesuítas usaram para convencer os reis de Portugal e Espanha a reconhecerem a legitimidade dos aldeamentos:

Se o gentio fosse senhoreado ou despejado, como poderia ser com pouco trabalho e gasto, e teriam vida espiritual conhecendo a seu criador e vassalagem a S. A. e obediência aos cristãos e todos viveriam melhor e abastados e S. A. teria grossas rendas nestas terras. (...) Este gentio é de qualidade que não se quer por bem, senão por temor e sujeição, como se tem experimentado (...). Sujeitando-se o gentio, cessarão muitas maneiras de haver escravos mal havidos e muitos escrúpulos, porque terão os homens escravos legítimos, tomados em guerra justa, e terão serviço e vassalagem dos índios e a terra se povoará e Nosso Senhor ganhará muitas almas e S. A. terá muita renda nesta terra.

NÓBREGA, Manoel da (1517-1570). Apontamentos de coisas do Brasil. Da Baía, 8 de Maio de 1558. In: LEITE, Serafim (org.). Novas cartas jesuíticas (de Nóbrega a Vieira). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940, pp. 76-78.

De fato, os inacianos conseguiram a aprovação de leis que proibiam a escravização dos indígenas e que davam aos missionários o controle dos aldeamentos.

Vale destacar que os jesuítas também faziam a assistência espiritual dos escravizados africanos. Para isso, iam até as fazendas para realizar missas, ouvir confissões e celebrar casamentos de acordo com os ritos católicos. Mas, enquanto os padres protegiam os indígenas da escravização, eles mesmos pediam escravos negros ao rei para que ajudassem nas atividades dos colégios e das fazendas que a Companhia de Jesus adquiriu no Brasil.

Imagem 2.     Imagem 2.

Imagem 01: O Terreiro de Jesus. Desenho s.d., assinado com as iniciais V.C.

Disponível em http://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/lugaresdememoria/faculdadedemedicinadabahia.htm Acesso em 20/06/2020

Imagem 02: O Terreiro de Jesus – Faculdade de Medicina depois de 1905. Fotografia s.d

.Disponível em http://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/lugaresdememoria/faculdadedemedicinadabahia.htm Acesso em 20/06/2020

Imagem 4.   Imagem 5.

Imagem 03: O Terreiro de Jesus no século XIX. Óleo sobre tela de Diógenes Rebouças (sec. XX), s.d. Acervo do Memorial da Medicina.

Disponível em http://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/lugaresdememoria/faculdadedemedicinadabahia.htm Acesso em 20/06/2020

Imagem 04: Fotografia da Catedral Basílica Primacial São Salvador e anexo (Faculdade de Medicina da Bahia da UFBA).

Disponível em https://acbahia.com.br/catedral-basilica-de-salvador-e-reaberta-apos-restauracao/ Acesso em 20/06/2020.

Outro ponto importante da atuação dos missionários foi o apoio às autoridades régias. Os padres auxiliaram em missões de exploração territorial, na pacificação dos indígenas e na criação de núcleos de povoamento, como vilas e cidades.  A exploração territorial se dava por meio de viagens em que estavam presentes agentes da Coroa portuguesa e jesuítas. O intuito era conhecer e tomar posse de novos territórios, para assim ampliar a área em que a Coroa portuguesa efetivamente dominava. Os jesuítas eram muito importantes nessas viagens, porque seu conhecimento e trabalho desempenhado com os indígenas lhes permitiam estabelecer a comunicação com os nativos. Às vezes, os indígenas poderiam não lidar muito bem com a presença dos europeus. Era aí que entrava os missionários, que pacificavam e acalmavam os ânimos entre portugueses e indígenas durante os primeiros contatos. Com o estabelecimento dos colégios e dos aldeamentos, os inacianos se fixavam em determinadas áreas e ao seu redor eram criadas vilas e cidade. Desse processo nasceram importantes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Vitória e São Paulo.

Muitas vezes, a atuação da Companhia de Jesus estava relacionada às ações colonizadores da Coroa portuguesa. Contudo, ocorreram algumas mudanças quando a administração do Brasil passou a ser feita pela Espanha. Nesse período, conhecido como União Ibérica, ocorreu um crescimento territorial importante e os jesuítas contribuíram para isso. Como?

Durante a União Ibérica, o Brasil passou a ser atacado pelos inimigos da Coroa espanhola, os ingleses, holandeses e franceses. Além disso, já era um projeto da Companhia de Jesus de expandir sua atuação no Brasil. Assim, a ordem missionária atuou junto com milícias ibéricas para fazer expedições em regiões ainda não ocupadas pelos colonizadores europeus. Essas viagens eram importantes, já que a partir delas os missionários teciam alianças com os nativos e faziam o descimento. Essa prática consistia em tirar os indígenas de áreas que os jesuítas e a Coroa não tinham influência e os levavam para os aldeamentos. Esses indígenas convertidos formavam mão-de-obra para as atividades colonizadoras e, principalmente, as milícias que lutavam contra os invasores.

Nessas expedições, os padres também criavam aldeamentos em regiões estratégicas para a defesa do Brasil e para a expansão das atividades missionárias no Brasil. Justamente por isso, os jesuítas contribuíram para a expansão territorial durante a União Ibérica, conforme vemos nos mapas:

Imagem 6.   Imagem 7.

Mapa 01: Marcha do povoamento e urbanização do Brasil no século XVI.

FONTE: HOLANDA, S. B. de (dir.). História Geral da Civilização Brasileira. A época colonial: do descobrimento à expansão territorial. v. I. Tomo I. 16 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, pp. 208-209.

Mapa 02: Marcha do povoamento e urbanização do Brasil no século XVII.

FONTE: HOLANDA, S. B. de (dir.). História Geral da Civilização Brasileira. A época colonial: do descobrimento à expansão territorial. v. I. Tomo I. 16 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, pp. 208-209.

Outro aspecto importante da atuação dos jesuítas foi a criação de estratégias para a conquista de uma ordem social baseada nos preceitos religiosos do catolicismo. Isso fica evidente em várias obras produzidas pelos missionários. Dente elas se destacam uma gramática tupi, que auxiliava na evangelização dos indígenas, além das peças teatrais, dos sermões e dos poemas jesuíticos. Esses textos abordavam temáticas do cotidiano e fomentavam a prática do catolicismo em todos os atos da vida. Além disso, instigavam os colonos a apoiarem o processo de colonização. Isso mostra que política e religião eram faces de uma mesma moeda para os missionários, ou seja, entendiam que a evangelização dependia de uma sociedade regida pelos princípios do catolicismo.

Imagem 8.

CALIXTO, Benedito (1853-1927). Fundação de São Vicente, 1900. Óleo sobre tela. ACERVO: Museu Paulista, São Paulo, Brasil.

Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Benedito_Calixto_de_Jesus_-_Fundação_de_São_Vicente,_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg Acesso em 20/06/2020.

É importante sabermos que a relação entre os jesuítas e as autoridades régias não era sempre harmônica. Mesmo estando aliados em um projeto de colonização e evangelização no Brasil existiam discordâncias nas formas de agir. Ocorreram, também, episódios de disputa de poder entre os agentes políticos e religiosos da colonização, bem como entre os missionários e a sociedade colonial em razão dos interesses divergentes desses diferentes grupos que compunham o Brasil Colonial. Não à toa, a ordem religiosa foi expulsa de Portugal e de seus domínios ultramarinos no século XVIII durante a administração do Marquês de Pombal. Eles encerraram suas atividades no Brasil em 1759 e só retornaram no século XIX, quando o Brasil já não era mais uma colônia de Portugal.

Imagem 9.

Legenda: Cartas, peças teatrais, sermões e poemas foram algumas obras produzidas pelo chefe de missão José de Anchieta1553  até 1597. Autor: Júlia Magalhães Martins.